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segunda, 08.06.2020

Pessoas não são egoístas - é você que precisa aprender a pedir ajuda

MOL na mídia


Em nossa nova coluna na Época Negócios, falamos sobre como lidar com a falta de espontaneidade que existe no ato de doar
Em nossa nova coluna na Época Negócios, falamos sobre como lidar com a falta de espontaneidade que existe no ato de doar

Enquanto escrevemos este texto, o Monitor das Doações nos indica: já são mais de R$ 5,5 bilhões doados por mais de 370 mil doadores únicos no país em prol de ações de prevenção e combate à COVID-19.

Que a situação de calamidade gera mais doações, todos já sabemos. Mas é raro que outro fator mobilizador seja levado em consideração, mesmo que ele seja determinante para que mais apoio chegue àqueles que tanto precisam: para que mais pessoas ajudem, é preciso que mais pessoas peçam ajuda. E, para isso, é preciso perder a vergonha.

Dessa vez, é possível que tenha sido mais fácil fazer isso. Com toda a humanidade enfrentando o mesmo duro problema, não é preciso dar muitos detalhes ao pedir socorro. Mesmo sem grandes explicações as pessoas se abrem mais, sentem maior empatia pela situação do outro e contribuem com aquilo que podem. Por outro lado, todo mundo está precisando de ajuda, e pode ser desafiador se destacar no meio da multidão, especialmente quando não se tem prática nisso - ou pior: quando se tem receio de levantar a mão.

É fácil perceber que isso é um problema no terceiro setor: basta acessar os sites e as páginas da maioria das organizações não-governamentais brasileiras e perceber que falta, em qualquer plataforma, um caminho fácil e intuitivo para doar. É raro encontrar um botão grande, com cores vibrantes, que simplesmente diga "doe aqui". Também é raro achar um caminho intuitivo, a um clique de distância, para acessar as informações de uma conta bancária para a qual se pode fazer um depósito de qualquer valor. Aqui no Brasil, não somos bons nisso. Nossa cultura nos instrui a não incomodar e nos deixa com vergonha de solicitar apoio. E a falta de iniciativa, por consequência, faz com que os apoios sejam menos expressivos e não atijam todo o seu potencial se a estratégia fosse outra.

A pesquisa Exame de Estudos Empíricos sobre Filantropia: Oito Mecanismos que Estimulam Doações (em tradução livre) comprova: doar não é uma ação espontânea para a maioria das pessoas. 85% das doações acontecem apenas depois que há uma solicitação para isso. É preciso despertar a generosidade adormecida em potenciais doadores e mostrar que as portas estão abertas para receber boas ações. E isso pode ser feito de forma recorrente, estimulando um senso de dever e comprometimento em cada cidadão que se propõe a ouvir e a ajudar.

Já é possível ver como isso está sendo feito de forma mais eficaz nos últimos meses: é só sintonizar em qualquer uma das dezenas de lives recentes feitas por cantores e bandas. Enquanto a transmissão está no ar, um QR Code é colocado no canto da tela, solicitando doações de qualquer valor aos espectadores - algumas delas até mesmo com cashback! Para atender ao pedido, basta escanear o código com a câmera do celular e se deixar ser direcionado para aplicativos como AME ou PicPay. Rápido e simples, como deve ser, especialmente em uma situação emergencial.

(Quer um exemplo de como isso deu certo para nós, por experiência própria? Realizamos, no último dia 27, nosso primeiro Festival Sorria, com QR Code na tela para captação de doações enquanto transmitimos 12 horas de lives com convidados incríveis - e nesse teste, foram mais de R$ 125 mil doados ao GRAACC!) 

E é nesse cenário que empresas e corporações podem fazer a diferença, dando o exemplo e estimulando mais gente a doar. A pandemia fez com que muitos CNPJs tomassem a dianteira para encorajar indivíduos a praticar generosidade. A XP Investimentos, por exemplo, criou o fundo Juntos Transformamos, dando a largada com uma doação de R$ 25 milhões. O pontapé inicial encorajou outras 3.900 pessoas a doar para o mesmo fundo, que até agora soma mais de R$ 31,9 milhões em doações. Outra iniciativa é o Matchfunding Enfrente, organizado por fundações como Tide Setubal, Itaú Social e outras, que está prestando apoio a comunidades em periferias de todo o Brasil ao transformar cada real doado por cidadãos e empresas em 3. 

O segredo aqui é transformar isso em um trabalho de equipe, abraçando todas as partes envolvidas. É, mais do que nunca, a hora da colaboração. Empresas podem fazer a bola rolar, mas devem ressaltar que não farão isso sozinhas, e que esperam, de seus clientes, uma postura generosa como aquela que apresentaram em primeiro lugar. Empreendedores devem dar o exemplo e mostrar que a realidade que querem não é uma que lhes garanta apenas saúde financeira e estabilidade. É preciso construir um mundo onde pedir uma doação para criar algo maior não seja motivo de vergonha, mas de orgulho. Um mundo que garante oportunidades fáceis de doar o que você tem, onde você está, como você pode, quando você consegue. 

Quais são as formas como isso pode ser feito? De que maneira se pode diminuir o atrito entre o pedido por uma doação e a entrega dela? Como conversar com aqueles que já conhecem sua empresa - como clientes, colaboradores e fornecedores - para mostrar o caminho por onde fazer o bem? 

É respondendo essas perguntas que vamos perceber que nossas impressões são distorcidas: as pessoas não são egoístas. Elas só precisam de uma abertura para oferecer ajuda - e, sem ouvir um pedido, jamais conseguirão direcionar sua proatividade de forma certeira e adivinhar quem está precisando.

Daí a importância de momentos dedicados especificamente a isso, como o Dia de Doar Agora, edição especial do Dia de Doar que aconteceu em 5 de maio. Em 24 horas, mais de 14 milhões de pessoas foram alcançadas nas redes sociais a partir da mobilização criada para celebrar a data. O número mostra que o sucesso da iniciativa se deve grandemente às iniciativas que reforçam de maneira insistente a importância de levantar a mão e pedir ajuda, em busca de quem está procurando uma chance para demonstrar generosidade. 

A ocasião é um lembrete de que a grande diferença na hora de fazer (e receber) doações está no ato vulnerável e corajoso de pedir. Se o último 5 de maio tiver nos ensinado sobre a importância de levantar a voz, é certo que já teremos trilhado uma das partes mais difíceis no caminho para fortalecer ações filantrópicas que nos levarão para um mundo melhor. 

P.S.: Precisa de uma inspiração para aprender a pedir doações? Assista à palestra viral da artista Amanda Palmer com papel e caneta na mão. Você certamente descobrirá ensinamentos preciosos sobre a generosidade que todo ser humano carrega dentro de si - e que está só esperando uma chance para desabrochar.

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Esta coluna foi originalmente publicada no site da revista Época Negócios.

 




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