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quarta, 08.04.2020

Como o coronavírus está alterando a nossa cidadania

Cultura de Doação


Diante da maior crise humanitária da nossa geração, a confiança precisa vir à frente do controle - ou não vamos dar conta de responder os desafios a tempo
Diante da maior crise humanitária da nossa geração, a confiança precisa vir à frente do controle - ou não vamos dar conta de responder os desafios a tempo

O mundo como conhecíamos já não existe mais.

Ainda não dá para ver todos os seus novos contornos da janela, enquanto tentamos nos ajustar à rotina de quarentena imposta pelo inimigo invisível. Mesmo que as perspectivas ainda não estejam claras, porém, há uma certeza: a pandemia do novo coronavírus está alterando, de forma definitiva, a economia que construímos, o papel do estado e as políticas que nos governam, a maneira como consumimos, nossas relações de trabalho... e, essencialmente, o modo como exercemos nossa cidadania. 

Pelas contas do Movimento Por Uma Cultura de Doação, nas últimas duas semanas de março, mais de R$ 800 milhões em dinheiro foram doados no Brasil por empresas, organizações da sociedade civil e pessoas físicas para combater a COVID-19 e seus impactos no país – os números não param de crescer e devem bater R$ 1 bilhão em breve. 

As doações estão financiando a compra de testes, leitos de UTI e respiradores para hospitais públicos; a distribuição de comida e itens de higiene, limpeza e proteção para os grupos mais vulneráveis; o apoio emergencial a trabalhadores que se viram subitamente sem renda; entre outras tantas frentes, do apoio a pequenos restaurantes de bairro ao enfrentamento da violência contra a mulher. É uma onda de engajamento social sem precedentes no Brasil, que parece tão contagiosa quanto o vírus que ela combate. 

Amargando a 122ª posição entre 146 países que fazem parte do último World Giving Index (2018), conhecido como o ranking global da solidariedade, o Brasil, historicamente, não é um país generoso quando se fala em doação de dinheiro. Não se trata de um problema econômico: à nossa frente estão não apenas todas as nações desenvolvidas, como esperado, mas também os vizinhos sul americanos e países muito mais pobres, como Haiti e Libéria. 

Questões culturais e estruturais de cada sociedade pesam muito mais na hora de apoiar uma causa. No Brasil, a maior barreira psicológica está na desconfiança: Para onde vai o dinheiro? Nossas infinitas decepções com a qualidade e a transparência de serviços públicos e privados nos ensinam, desde sempre, a ter dois pés atrás diante de qualquer instituição. Resultado: 44% dos brasileiros acham que a maior parte das ONGs não é confiável, segundo a Pesquisa Doação Brasil.

Agora, porém, há uma variável nova, que apaga esse ponto de interrogação: a urgência. 

A necessidade de agir rapidamente para conter os danos da pandemia tem nos obrigado a abrir mão do controle e das dúvidas para confiar no terceiro setor, esse braço da sociedade tão desprezado em tempos recentes. Diante das ausências do Estado e do iminente colapso do sistema de saúde, são as ONGs e iniciativas da sociedade civil organizada que surgem para sanar falhas dos serviços públicos (direcionando doações ao SUS, por exemplo) e para acolher a população, especialmente as camadas mais vulneráveis, em benefício de todos (pois só há cura para a COVID-19 se for coletiva). 

Nesse cenário de guerra, é preciso acreditar nas instituições e uns nos outros, apostando na esperança de que todos estão fazendo seu melhor pelo bem comum. É difícil, sim – mas analisar demais ou se abster de agir é paralisante e pode ser ainda mais letal. 

Precisamos confiar que os recursos doados para o SUS irão, de fato, virar equipamentos nos hospitais públicos e beneficentes. Temos de confiar nas lideranças de periferias que, mesmo sem CNPJ, são as únicas capazes de levar álcool gel, gás e cestas básicas a famílias que vivem em vielas onde nem uma bicicleta chega. Com confiança, devemos entregar dinheiro para apoiar pequenos negócios do nosso entorno, que não sabemos como estarão no fim da quarentena. É a confiança que forma alianças entre concorrentes, como fizeram as operadoras de telefonia ou os grandes bancos privados. Temos de confiar até que todos estão lavando as mãos, tossindo direito, respeitando as regras da quarentena e se isolando em caso de sintomas. 

(E sim, também temos que confiar – e cobrar – que, passada a emergência, haverá prestação de contas transparente e medição de impactos para todas as doações e investimentos sociais feitos. Sem isso, a confiança é quebrada, e voltamos à estaca zero.)

Colecionando títulos como o de 7º país mais desigual do mundo e o 2º com maior concentração de renda, o Brasil sente hoje os efeitos do novo coronavírus amplificados por 520 anos de abismos sociais. Escancaradas pela ameaça coletiva, as indignidades da miséria subitamente se tornaram um problema de todos – e que mesmo impressionantes R$ 1 bilhão em doações sequer começa a resolver. 

Uma doença democrática como a COVID-19, que ataca ricos com carteirinha dos melhores planos de saúde e pobres que dividem barracos de um cômodo sem janela; que força tanto empresas na lista das 500 maiores quanto microempreendedores individuais a baixar as portas, ficará cristalizada no imaginário coletivo por décadas. Todos nos perguntaremos (ou deveríamos): por que esperamos uma tragédia anunciada para sair da inércia e agir? Estamos fazendo o bastante agora? Como mantemos viva essa onda de solidariedade quando o pior passar?

Essa calamidade deixará muitas sequelas, incluindo, infelizmente, milhares de famílias em luto e uma longa recessão. A esperança é que a crise também nos deixe a lição definitiva de que há pré-requisitos para viver harmoniosamente em sociedade, sejamos nós grandes corporações ou cidadãos comuns. Confiança, empatia, solidariedade e pensamento coletivo estão entre esses valores essenciais, que podem ser exercidos por meio da cultura da doação. Praticar isso agora será fundamental para nos salvar – e, depois, para que o futuro seja mais justo, saudável e sustentável para todos. 

P.S.: A internet está anotando no caderninho quem são as empresas engajadas nesse momento – quem doou mais, quem fez pouco, quem foi apenas marqueteiro. Não há dúvidas: a crise do coronavírus é de todos, e a companhia que não fizer sua parte com efetividade real será cobrada. O que a sua está fazendo?  

Roberta Faria e Rodrigo Pipponzi são empreendedores sociais e fundadores da MOL, a maior editora de impacto social do mundo, que já doou mais de R$ 33 milhões para 70 ONGs de todo o Brasil.

 

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Este artigo foi originalmente publicado no site da revista Época Negócios.




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